terça-feira, 12 de abril de 2011

Bíblico

Fatigado de ver como sua criação manipulava, pisava e acabava lentamente com os corações uns dos outros, Deus pediu a um enviado divino que fizesse uma errata no livro do Apocalipse e a escritura passou a narrar: "...e então o amor destruiu todos os corações e houve choro e ranger de dentes".

Deste dia em diante ninguém mais pregou o amor.

segunda-feira, 21 de março de 2011

"O vazio, a falta de alguém"

Ficou na lembrança um sorriso que não via há muito tempo. Apertou na garganta a saudade de um abraço dado por braços cansados, mas sempre carinhosos. Saltaram da memória conselhos diversos, palavras, trechos de um amor zeloso quem nem sempre eu ouvi como deveria. Ardeu no peito a angústia de um amor que deverá sobreviver por si só, na incapacidade de se materializar em um carinho. Doeu em uma lágrima rolada a certeza da partida, sem retorno. Vive ainda a esperança de que a luz una quem foi e quem fica em uma jornada posterior. Fica a vontade de que a saudade que hoje me machuca ainda me conforte.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Vácuo

É bem justo que não sintas minha falta
Eu nunca estive lá

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Pendências

A gente sabe que está fora do lugar
Quando tem o corpo na cama, mas os olhos na janela.
Ela acorda e passa os olhos no lençol amarrotado
Antes era a covinha das costas dela que lhe tirava o primeiro sorriso do dia
Ela levanta com o pé esquerdo e o coração cansado
Olha para o espelho com a cara amassada e o cabelo desalinhado
Vê o reflexo dela na cama e percebe que bagunçou muito mais do que os lençois e o próprio rosto
São coisas a fazer, pendências...
Lavar o rosto, trocar a roupa de cama e arrumar a vida

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Abafado

Ela não foi até a janela pegar um ar
Foi tentar se lembrar de como era a vida lá fora.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

O fim de agosto e o começo de outro verão

Foi uma briga horrível. Ele disse tudo ao contrário do que queria e devia.
Ela chorou, esbravejou e, por fim, consentiu que o coração mudasse de cor e que a boca dele não tivesse mais gosto de fruta doce.
Que a boca dele não tivesse qualquer gosto que fosse.
E foram anos sem palavras, sem gritos, sem notícias e muita memória.
Até que um dia ele resolveu voltar.
Com a mesma dor e o mesmo sorriso bobo que carrega o cão com o rabo entre as pernas.
Quis se arrepender.
Quis entrar em casa.
Quis desfazer a mala e abraça-la na jardineira
Voltou para uma casa que não era sua
Encontrou um filho que não era seu
Enxergou nela um olhar que não reconheceu
Deixou rolar uma lágrima
Que sujou de negro o pombo branco que trazia nas mãos
Foi embora com o coração amarelado
E a cara toda borrada de carvão

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Sol a pino

Tinha um verão em uma cidade largada
E um vendedor de algodão doce em uma praça também apagada
No meio do nada tinha uma moça dentro de uma jardineira rosada
Muito bronze no corpo, pouco brilho nos olhos
Mas o suficiente para deixar a alma do vendedor agoniada
Ela tinha raiva da poeira que a rasteirinha espalhava
E imaginava amargurada uma areia macia e salgada
Ele veio do litoral e nunca conheceu brisa ou maresia
Que lhe deixasse leve como o andado daquela morena no calor dos condenados
Sem sorriso no rosto, ela queria algodão doce, mas não tinha dinheiro trocado
Ele lhe ofereceu um assim mesmo e de muito bom grado
Ela pegou com a mão dura, como se um favor tivesse aceitado
E foi embora com a boca doce, o peito seco e a cara fechada
Ele baixou os olhos, procurou o amor na poeira e viu que o bolso estava cheio de trocados